Rascunho passado a limpo uma vez só, escrito para a tela de conversas com Pri e Rafa em 15/07/2020- Quanto tempo dura um bairro?

Vou começar por uma charge que meu amigo Wili postou num dia qualquer desses, em que aparece um navio indo a pique enquanto um professor dita a seus alunos a página em que devem abrir suas apostilas. É uma charge que, à primeira leitura, ironiza o ensino à distância durante a pandemia, mas que, à segunda leitura, deflagra a absurda distância entre o acadêmico e o real, colocando-nos, acadêmicos, contra a parede, ou contra o casco: o que vale ensinar-aprender, perguntar-responder enquanto esse Titaniczão, o planeta, espetacularmente afunda?

Abrindo a apostila...Para o filósofo Achille Mbembe, só resta uma pergunta agora, a derradeira: “Seremos capazes de redescobrir a nossa pertença à mesma espécie e o nosso inquebrável vínculo à totalidade do vivo”?

Ao aceitar o convite da Priscila para participar dessa tela de conversa, tive muitas dúvidas sobre se valeria responder à pergunta “quanto tempo dura um bairro?” ou se o melhor mesmo seria afundar em contrito silêncio...

Ora, perguntar “quanto tempo dura um bairro?” já supõe que seja limitada a duração de um bairro...Logo me lembrei de outro amigo, o Armando Freiras Filho, que escreve a cada dia um poema para uma série chamada Numeral. _ “Até que você morra”, ´perguntou-lhe uma vez um jornalista. _ “Até que um de nós, leitor ou poeta, cesse”, respondeu desafiadoramente o Armando...O que nos ameaça, neste momento, é cessar antes do planeta. Resta saber se o planeta continuará...

Para além dos melhores motivos para que não tenhamos que fazer essa pergunta (“quanto tempo dura um bairro”), quero levantar um, talvez o derradeiro, com certeza o que mais me parece se vincular à “totalidade do vivo” ...

Bem, esses tais melhores motivos podemos encontrar:

-  na velha Jane Jacobs, para quem um bairro feito apenas de novas edificações é um bairro feito apenas de bancos e boutiques;

- no Carlos Nelson Ferreira dos Santos, para quem a demolição de um bairro ou de parte dele é a demolição dos direitos à localização e às práticas de espaço de um grupo social, já que toda vez que se fala em preservar um lugar logo se fala  em tirar de lá aquela gentinha e aqueles usinhos que lá estão encardindo o patrimônio; 

- na Ecléa Bosi, para quem a espoliação das lembranças é o mais cruel exercício de opressão econômica ao sujeito;

- na Odette Seabra, para quem a construção de um Carrefour como de um Centro de Cultura Nordestino no Bairro do Limão, em São Paulo, significa impor aos seus moradores lógicas de espaço que não lhes correspondem;

- no José de Souza Martins, para quem o “atrasado” significa o atropelo do social pelo econômico;

- na Patrícia Birman, para quem tudo que se opõe e resiste por oposição à metropolização, à abstração do espaço e da vida, é quilombo urbano que se deve defender com sangue.

Para além desses melhores motivos, então, para que não tenhamos que fazer essa pergunta (“quanto tempo dura um bairro”), quero levantar um, talvez o derradeiro, com certeza o que mais me parece se vincular à “totalidade do vivo”: o socioambiental.

Em primeiro lugar, nada precisa ser demolido, nada precisa ser construído em seu lugar. A indústria da construção, desde há muito, neste necrocapitalismo financeiro, é apenas a produção de mais e mais dinheiro, não de mais e mais coisas. Que se levantem o número de imóveis vagos ou subutilizados nesta metrópole e em outras e o número de pessoas sem imóveis: os que faltam a essas pessoas na verdade sobram, como, neste necroneoliberalismo, sobram essas pessoas, cujos direitos à localização e às suas práticas de espaço tanto quanto à vida não se reconhecem. 

Em segundo lugar, como bem observou o Carlos Nelson Ferreira dos Santos, “vem sempre coisa pior ou mais feia”. Coisas piores ou mais feias, para o Carlos Nelson, são os espaços estéreis tais como conjuntos habitacionais, espigões, parques muito bem desenhadinhos para a separação dos corpos e o tédio etc. Especificamente ele se referia ao viaduto que se construiu no lugar de parte do Bairro Catumbi no Rio de Janeiro, onde, como em Santa Tereza e Lagoinha, ruas viravam casas, apropriadas intensamente pelo ir-vir-ficar-trocar-encontrar-ver-o-movimento de moradores e usadores de dentro e de fora de portas e janelas diretamente abertas para ruas tão estreitas, que de um lado se alcança o outro pelo grito: “_ Já para casa, menino!”. A essa apropriação o arquiteto dava o nome de “usança”, uma mistura de uso com...lambança, isto é, com a vida ela mesma. Suely Rolnik, numa entrevista disponível no youtube, chama o contrário desses espaços estéreis de espaços de “Teko-Porã”, um termo que ela toma emprestado dos guaranis e que significa “belo e bom para a vida”. Para ela, são esses espaços que, justamente por diferirem de nossas estruturas psicossociais, de nossas subjetividades, trazem um embrião de criação de algo novo em nós: espaços férteis, portanto. Piores e mais feios, guaranimente falando, então, são os espaços ruins para a vida, mortalmente homogeneizadores e previsíveis, que aniquilam em nós a possibilidade de sermos afetados e de nos tornarmos algo diferente do que somos, de experimentarmos. Uma vez chamei esses espaços de anti-eróticos. 

Por último, e talvez mais importante neste momento de naufrágio, a demolição de uma única edificação representa uma perda de energia incorporada equivalente a um incêndio florestal... A apostila aqui é de um estudo realizado em Zurique a pedido do Karl Viridén, que lá reformou uma edificação de 1894. Energia incorporada, nesse estudo, designa a soma de energia investida numa edificação, da construção (extração e transporte de material, instalação de máquinas, deslocamento de trabalhadores) à destruição (implosão, transporte e eliminação ou reciclagem de entulho). Nem mesmo demolir uma edificação para em seu lugar construir outra energeticamente econômica, descobriu-se, representa algum ganho ambiental. Em números, uma destruição seguida de reconstrução sob normas passivas gera um consumo energético de 112 kwh/m²/ano; uma destruição-reconstrução convencional, 200 kwh/m²/ano, enquanto uma reforma consome apenas 82 kwh/m²/ano. São, portanto, as casas sobreviventes na Lagoinha e em Santa Tereza tanto quanto no Funcionários que virou Savassi, “reservas ambientais” de que não se pode prescindir. Noves fora, demolir, tanto quanto incendiar, devastar, enlamear etc é afundar o Titaniczão, sem direito a bote salva-vidas nem mesmo para os que, desses e de outros bairros, florestas, matas, ribeirões..., empurraram e ainda empurram o que lhes parece diverso, ameaçador posto que vivo. 

Como escreveu o Achille Mbembe, “estamos respondendo aqui e agora pela nossa vida sobre a terra”(...), e “a humanidade não conhecerá a liberdade tanto fora da sociedade quanto da dependência da biosfera”.

Referências:

MBEMBE, Achille. O direito universal à respiração. Disponível em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/O-direito-universal-a-respiracao/52/47177, acesso em 15/07, 16:00 hs.

JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades americanas. Martins Fontes, São Paulo, 2000.

SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Quando a rua vira casa - A apropriação de espaços de uso coletivo em um centro de bairro
Série Universidade, v. 3
Autores: Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e Orlando Mollica (desenhos)
Páginas: 174
Formato: 25 x 23,5 cm
Peso: 0,515 kg
ISBN: 978-85-228-1252-3
Eduff
Ano de publicação: 2017
Edição: 4ª, revista e aumentada

BOSI, Ecleía. Memória e sociedade- lembrança de velhos. São Paulo: T.A.Queiroz Editor, 1979.

SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Urbanização e fragmentação: cotidiano e vida de bairro na metamorfose da cidade em metrópole, a partir das transformações do bairro do Limão. 2003.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.

MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples. São Paulo: Contexto, 2012.

BIRMAN, Patrícia; LEITE, Márcia Pereira; MACHADO, Carly & SÁ CARNEIRO, Sandra de. 2015. Dispositivos urbanos e trama dos viventes: ordens e resistências. Rio de Janeiro: Editora FGV.

ROLNIK, Suely. Espaços de Teko-Porã. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_0iDKO8I-f8, acesso em 15/07, 16:30 hs.

BOVET, Philippe. Arquitetos, não derrubem nada! Disponível em: https://diplomatique.org.br/arquitetos-nao-derrubem-nada/, acesso em 15/07/2020, 12:00 hs.

O poema que fiquei devendo ao Daniel Menezes, como resposta à sua deliciosa pergunta:

Bairro

Enquanto espero, 

não vejo a máquina que copia nem a lima que pule: 

detrás do biombo é que o chaveiro trabalha. 

À frente estrilam telefonemas em dois telefones 

e os mais vendidos são os equipamentos de segurança

(_ Trouxeste a chave?).

Passam os donos e seus cães, 

passam a dona, seu cão e seus três pássaros ao ombro,

em prisão recíproca (ainda que a porta 

de onde ela surge esteja sempre aberta

e por ela penetre sem chave o velho vizinho).

Este é o meu bairro, enquanto ando por ele, 

desde que aqui moro, 

sem que aqui tenham morado meus antepassados, 

sem que possa deixá-lo à minha filha. 

Conheço então eu mesma, uma a uma, essas casas,

onde se criaram outros filhos e 

passeiam estranhados netos. 

Conheço Alice, 

pezinhos diminutos em transatlânticos tênis,

os passos interrompidos a cada semelhante.

Há aqui um silêncio repetido a cada último envelhecimento

- pintura descascando-se, telha quebrada, grama amarela. 

Há aqui um silêncio repetido a cada última aparição.

Fujo com meu cão a nos abrigar na avenida de novíssimos edifícios: 

ele, detrás da porta de vidro; eu, no caixa eletrônico, 

falsa, ah, falsa, como notas, como números.

Rascunho passado a limpo uma vez só, escrito para a tela de conversas com Pri e Rafa em 15/07/2020- Quanto tempo dura um bairro?

Vou começar por uma charge que meu amigo Wili postou num dia qualquer desses, em que aparece um navio indo a pique enquanto um professor dita a seus alunos a página em que devem abrir suas apostilas. É uma charge que, à primeira leitura, ironiza o ensino à distância durante a pandemia, mas que, à segunda leitura, deflagra a absurda distância entre o acadêmico e o real, colocando-nos, acadêmicos, contra a parede, ou contra o casco: o que vale ensinar-aprender, perguntar-responder enquanto esse Titaniczão, o planeta, espetacularmente afunda?

Abrindo a apostila...Para o filósofo Achille Mbembe, só resta uma pergunta agora, a derradeira: “Seremos capazes de redescobrir a nossa pertença à mesma espécie e o nosso inquebrável vínculo à totalidade do vivo”?

Ao aceitar o convite da Priscila para participar dessa tela de conversa, tive muitas dúvidas sobre se valeria responder à pergunta “quanto tempo dura um bairro?” ou se o melhor mesmo seria afundar em contrito silêncio...

Ora, perguntar “quanto tempo dura um bairro?” já supõe que seja limitada a duração de um bairro...Logo me lembrei de outro amigo, o Armando Freiras Filho, que escreve a cada dia um poema para uma série chamada Numeral. _ “Até que você morra”, ´perguntou-lhe uma vez um jornalista. _ “Até que um de nós, leitor ou poeta, cesse”, respondeu desafiadoramente o Armando...O que nos ameaça, neste momento, é cessar antes do planeta. Resta saber se o planeta continuará...

Para além dos melhores motivos para que não tenhamos que fazer essa pergunta (“quanto tempo dura um bairro”), quero levantar um, talvez o derradeiro, com certeza o que mais me parece se vincular à “totalidade do vivo” ...

Bem, esses tais melhores motivos podemos encontrar:

-  na velha Jane Jacobs, para quem um bairro feito apenas de novas edificações é um bairro feito apenas de bancos e boutiques;

- no Carlos Nelson Ferreira dos Santos, para quem a demolição de um bairro ou de parte dele é a demolição dos direitos à localização e às práticas de espaço de um grupo social, já que toda vez que se fala em preservar um lugar logo se fala  em tirar de lá aquela gentinha e aqueles usinhos que lá estão encardindo o patrimônio; 

- na Ecléa Bosi, para quem a espoliação das lembranças é o mais cruel exercício de opressão econômica ao sujeito;

- na Odette Seabra, para quem a construção de um Carrefour como de um Centro de Cultura Nordestino no Bairro do Limão, em São Paulo, significa impor aos seus moradores lógicas de espaço que não lhes correspondem;

- no José de Souza Martins, para quem o “atrasado” significa o atropelo do social pelo econômico;

- na Patrícia Birman, para quem tudo que se opõe e resiste por oposição à metropolização, à abstração do espaço e da vida, é quilombo urbano que se deve defender com sangue.

Para além desses melhores motivos, então, para que não tenhamos que fazer essa pergunta (“quanto tempo dura um bairro”), quero levantar um, talvez o derradeiro, com certeza o que mais me parece se vincular à “totalidade do vivo”: o socioambiental.

Em primeiro lugar, nada precisa ser demolido, nada precisa ser construído em seu lugar. A indústria da construção, desde há muito, neste necrocapitalismo financeiro, é apenas a produção de mais e mais dinheiro, não de mais e mais coisas. Que se levantem o número de imóveis vagos ou subutilizados nesta metrópole e em outras e o número de pessoas sem imóveis: os que faltam a essas pessoas na verdade sobram, como, neste necroneoliberalismo, sobram essas pessoas, cujos direitos à localização e às suas práticas de espaço tanto quanto à vida não se reconhecem. 

Em segundo lugar, como bem observou o Carlos Nelson Ferreira dos Santos, “vem sempre coisa pior ou mais feia”. Coisas piores ou mais feias, para o Carlos Nelson, são os espaços estéreis tais como conjuntos habitacionais, espigões, parques muito bem desenhadinhos para a separação dos corpos e o tédio etc. Especificamente ele se referia ao viaduto que se construiu no lugar de parte do Bairro Catumbi no Rio de Janeiro, onde, como em Santa Tereza e Lagoinha, ruas viravam casas, apropriadas intensamente pelo ir-vir-ficar-trocar-encontrar-ver-o-movimento de moradores e usadores de dentro e de fora de portas e janelas diretamente abertas para ruas tão estreitas, que de um lado se alcança o outro pelo grito: “_ Já para casa, menino!”. A essa apropriação o arquiteto dava o nome de “usança”, uma mistura de uso com...lambança, isto é, com a vida ela mesma. Suely Rolnik, numa entrevista disponível no youtube, chama o contrário desses espaços estéreis de espaços de “Teko-Porã”, um termo que ela toma emprestado dos guaranis e que significa “belo e bom para a vida”. Para ela, são esses espaços que, justamente por diferirem de nossas estruturas psicossociais, de nossas subjetividades, trazem um embrião de criação de algo novo em nós: espaços férteis, portanto. Piores e mais feios, guaranimente falando, então, são os espaços ruins para a vida, mortalmente homogeneizadores e previsíveis, que aniquilam em nós a possibilidade de sermos afetados e de nos tornarmos algo diferente do que somos, de experimentarmos. Uma vez chamei esses espaços de anti-eróticos. 

Por último, e talvez mais importante neste momento de naufrágio, a demolição de uma única edificação representa uma perda de energia incorporada equivalente a um incêndio florestal... A apostila aqui é de um estudo realizado em Zurique a pedido do Karl Viridén, que lá reformou uma edificação de 1894. Energia incorporada, nesse estudo, designa a soma de energia investida numa edificação, da construção (extração e transporte de material, instalação de máquinas, deslocamento de trabalhadores) à destruição (implosão, transporte e eliminação ou reciclagem de entulho). Nem mesmo demolir uma edificação para em seu lugar construir outra energeticamente econômica, descobriu-se, representa algum ganho ambiental. Em números, uma destruição seguida de reconstrução sob normas passivas gera um consumo energético de 112 kwh/m²/ano; uma destruição-reconstrução convencional, 200 kwh/m²/ano, enquanto uma reforma consome apenas 82 kwh/m²/ano. São, portanto, as casas sobreviventes na Lagoinha e em Santa Tereza tanto quanto no Funcionários que virou Savassi, “reservas ambientais” de que não se pode prescindir. Noves fora, demolir, tanto quanto incendiar, devastar, enlamear etc é afundar o Titaniczão, sem direito a bote salva-vidas nem mesmo para os que, desses e de outros bairros, florestas, matas, ribeirões..., empurraram e ainda empurram o que lhes parece diverso, ameaçador posto que vivo. 

Como escreveu o Achille Mbembe, “estamos respondendo aqui e agora pela nossa vida sobre a terra”(...), e “a humanidade não conhecerá a liberdade tanto fora da sociedade quanto da dependência da biosfera”.

Referências:

MBEMBE, Achille. O direito universal à respiração. Disponível em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/O-direito-universal-a-respiracao/52/47177, acesso em 15/07, 16:00 hs.

JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades americanas. Martins Fontes, São Paulo, 2000.

SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Quando a rua vira casa - A apropriação de espaços de uso coletivo em um centro de bairro
Série Universidade, v. 3
Autores: Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e Orlando Mollica (desenhos)
Páginas: 174
Formato: 25 x 23,5 cm
Peso: 0,515 kg
ISBN: 978-85-228-1252-3
Eduff
Ano de publicação: 2017
Edição: 4ª, revista e aumentada

BOSI, Ecleía. Memória e sociedade- lembrança de velhos. São Paulo: T.A.Queiroz Editor, 1979.

SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Urbanização e fragmentação: cotidiano e vida de bairro na metamorfose da cidade em metrópole, a partir das transformações do bairro do Limão. 2003.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.

MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples. São Paulo: Contexto, 2012.

BIRMAN, Patrícia; LEITE, Márcia Pereira; MACHADO, Carly & SÁ CARNEIRO, Sandra de. 2015. Dispositivos urbanos e trama dos viventes: ordens e resistências. Rio de Janeiro: Editora FGV.

ROLNIK, Suely. Espaços de Teko-Porã. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_0iDKO8I-f8, acesso em 15/07, 16:30 hs.

BOVET, Philippe. Arquitetos, não derrubem nada! Disponível em: https://diplomatique.org.br/arquitetos-nao-derrubem-nada/, acesso em 15/07/2020, 12:00 hs.

O poema que fiquei devendo ao Daniel Menezes, como resposta à sua deliciosa pergunta:

Bairro

Enquanto espero, 

não vejo a máquina que copia nem a lima que pule: 

detrás do biombo é que o chaveiro trabalha. 

À frente estrilam telefonemas em dois telefones 

e os mais vendidos são os equipamentos de segurança

(_ Trouxeste a chave?).

Passam os donos e seus cães, 

passam a dona, seu cão e seus três pássaros ao ombro,

em prisão recíproca (ainda que a porta 

de onde ela surge esteja sempre aberta

e por ela penetre sem chave o velho vizinho).

Este é o meu bairro, enquanto ando por ele, 

desde que aqui moro, 

sem que aqui tenham morado meus antepassados, 

sem que possa deixá-lo à minha filha. 

Conheço então eu mesma, uma a uma, essas casas,

onde se criaram outros filhos e 

passeiam estranhados netos. 

Conheço Alice, 

pezinhos diminutos em transatlânticos tênis,

os passos interrompidos a cada semelhante.

Há aqui um silêncio repetido a cada último envelhecimento

- pintura descascando-se, telha quebrada, grama amarela. 

Há aqui um silêncio repetido a cada última aparição.

Fujo com meu cão a nos abrigar na avenida de novíssimos edifícios: 

ele, detrás da porta de vidro; eu, no caixa eletrônico, 

falsa, ah, falsa, como notas, como números.

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